quinta-feira, 7 de maio de 2009

O craque de cinco vidas


Se gato tem mesmo sete vidas eu não sei, mas que o Ronaldo já gastou duas, isso eu posso provar. Aos três meses, teve a cabeça prensada por uma porta de madeira de 100 kg. Aos cinco, levou um pisão de cavalo e quebrou a pata. Achei melhor impedi-lo de usar mais vidas e levei-o ao veterinário antes que ele pulasse de uma janela ou se atirasse na frente de um carro.

Durante os 11 km que separam a hípica do hospital veterinário, Fenômeno foi ronronando na caixinha de transporte: brincou com meu cabelo, mordeu o próprio rabo e deixou a perna quebrada em várias posições medonhas e impossíveis para ossos em seus devidos lugares.
Na clínica, passei aquela vergonha quando a atendente perguntou o nome do paciente. “É Ronaldo, moça. Mas eu juro que não tenho nada com isso. Foram os tratadores da hípica que deram esse nome para ele…” Ela se inclinou para olhar dentro da caixinha. “Ele é gordo?” A noite prometia.

Uma hora depois, Ronaldo ensaiava seus dribles em casa, a perna ruim presa numa tala desproporcional que deixou o vira-lata alvinegro mais pra Garrincha. “Fica quietinho que mamãe já vem”, e fechei a porta.
Enquanto buscava capacete, corda, luvas de boxe e checava se é possível alugar escafandros para dar remédio a um gato, meus outros bichanos montaram guarda em frente à porta da lavanderia.

Hipnotizados de ciúmes, nem se mexiam. Nunca vi o Grafite tão imóvel.
Reuni a maior quantidade de apetrechos anti mordidas e arranhões que eu tinha em casa e levei para a lavanderia. Assim que abri a porta, Ronaldo veio manquetolando alegremente, arrastando a pata quebrada e um rastro de esparadrapos subitamente imundos, babados e mordidos. Não precisou nem de dez minutos para arrancar a tala que o veterinário levou outra meia hora para refazer, agora envolvendo todo o corpo do pestinha.

Enquanto dirigia de volta para casa, ia pensando em todos os impropérios que falaria antes de dar cartão amarelo para o mocinho. Mas assim que abri a caixinha, mudei de ideia. Enrodilhado em seu corpinho famélico, Ronaldo dormia o sono dos craques. É, foi gol.

PS: Este post é uma homenagem à jornalista "coração de pudim" Bia Levischi e suas deliciosas crônicas de bigodes do Gatoca.

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