terça-feira, 16 de junho de 2009

Profissão do futuro?

Confúcio falou: “Se não podes conduzir teu negócio conforme teu discurso, não terás sucesso”. É uma tradução livre, claro. Mas isso significa que a hipocrisia, assim como a mentira, tem pernas curtas. Gosto de acreditar nisso.
Em matéria publicada pelo Correio Brasiliense, baseada em pesquisa conduzida pela Fundação Instituto de Administração (FIA), a respeito de profissões do futuro, foi apontada como futuríssima a “gerência de eco-relações”.
E o que faz um gerente de eco-relações? Como profissão do futuro, muitas das suas atividades ainda estão para serem desenvolvidas. Mas aponta para o caminho de buscar a sustentabilidade das empresas mediante o relacionamento com as “partes interessadas” (os stakeholders). Ou seja, consolidar junto aos clientes, fornecedores, colaboradores, vizinhança, grupos e movimentos sociais, sociedade em geral, uma relação de mútuo interesse. Produzir e comercializar produtos que tragam satisfação não só aos clientes, mas também demonstrar transparência de que os caminhos seguidos até colocar o produto na prateleira, foram trilhados de maneira correta, do ponto de vista social e ambiental.
E é aí que entra Confúcio: se isto for só discurso, dissociado da prática da empresa, não terá sucesso. Ou, não será sustentável. Essa será, então, a grande função de um gerente de eco-relação: traduzir para a cultura empresarial a preocupação socioambiental, procurando manter o interesse econômico associado a uma visão de futuro que garanta a sustentabilidade do negócio.
Como podemos ver, uma função ética. Precisará interagir com todos os níveis da empresa, buscando parcerias para que o desenvolvimento dos produtos e das práticas empresariais sejam transparentes, e transmitam confiança às “partes interessadas”. Que serão cada vez mais interessadas, e cada vez mais amplas.
A responsabilidade socioambiental não é coisa nova; múltiplas iniciativas estão em desenvolvimento por empresas ao redor do mundo. Sinceras, ou não. Muitas ainda com a visão de que a prática da responsabilidade socioambiental é bom para os negócios. Outras, com a visão de que os negócios é que devem ser bons para o meio ambiente e para a sociedade. Questão de cultura e de valores.
Esse será o maior desafio de um gerente de eco-relações: trabalhar a cultura da empresa, fazendo com que a prática socioambiental seja o ponto de partida para o planejamento estratégico.
Terá que trabalhar com questões complexas, como:
• Até que ponto a empresa está disposta a analisar processos e incorporar em suas planilhas os custos externos ? As tais “externalidades”, que representam custos coletivos, não apropriados pelo ciclo da empresa ou dos seus fornecedores?
• Até que ponto a empresa está tratando a eco-responsabilidade como business?
• Até que ponto a empresa está adotando a eco-responsabilidade como discurso do “marketing verde”?
Enfim, entre tantas atividades, o gerente de eco-relações certamente terá que consolidar a imagem institucional que corresponda à realidade da estratégia empresarial. Para isso, primeiro terá que contribuir para uma estratégia em sintonia com a sustentabilidade. Afinal, conduzir os negócios dissociados do discurso, não é sustentável. É picaretagem. E picaretagem não é sustentável, como já dizia Confúcio.

Gil Borges

Mudanças ambientais no DF

Além de voltar a emitir licenças ambientais, o Governo do Distrito Federal (GDF) aprovou o Plano Diretor de Ordenamento Territorial – PDOT.

A sanção do PDOT, as mudanças na emissão de licenças ambientais e as alterações nas normas federais para licenciamento de loteamentos de interesse social, são questões que merecem toda a atenção da população de Brasília.
A Área de Proteção Ambiental (APA) do Planalto Central foi criada em 2002, mediante decreto federal. Ali, ficou estabelecido que caberia ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o licenciamento ambiental de empreendimentos potencialmente poluidores naquela APA. Como essa área abrange praticamente todo o Distrito Federal, isso impedia o Governo local (GDF) de emitir licenças ambientais. Na época, a preocupação com as constantes invasões de áreas públicas, levou o Governo Federal a adotar tal controle.
Esse procedimento sempre foi contestado pelo GDF que, na gestão atual, voltou a insistir na sua alteração. Em final de abril, o Governo Federal cedeu e reviu a situação, devolvendo ao GDF a emissão de licenças ambientais.
Com essa medida, o GDF espera facilitar a regularização de condomínios e dar mais celeridade a empreendimentos. O que já gerou sérias preocupações, manifestada por entidades ambientais e organizações sociais, de que o novo disciplinamento venha atender às demandas por licenças, ao invés de representar uma proposta de gestão ambiental.
A competência para emissão de licenças passa a ser do Instituto Brasília Ambiental – IBRAM. O que também preocupa os ambientalistas, face à falta de estrutura do IBRAM para analisar e emitir as licenças. Para resolver isso, o GDF sinaliza com a realização de concurso público para contratação de analistas ambientais.
O GDF conseguiu outra vitória, com a sanção do Plano Diretor e Ordenamento Territorial – PDOT. O plano representa uma proposta de regularização de terras no Distrito Federal. Abrangerá todo o espaço físico do DF e regulará a localização dos assentamentos humanos e das atividades econômicas e sociais da população.
O PDOT prevê a criação de 29 áreas de expansão urbana, além da regularização de quase 600 condomínios do Distrito Federal. De acordo com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (Seduma), em torno de 24% da população do DF mora, atualmente, nestes locais.
Esse Plano também apresenta muitas polêmicas, tendo sido motivo de intensos debates pela sociedade. A preocupação é que venha a fomentar a especulação imobiliária em áreas de sensibilidade ambiental, já que Áreas de Proteção Ambiental (APA) estão ameaçadas pelo plano ao abrigar parte dos novos setores habitacionais.
Essa foi a preocupação do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJ-DFT), que concedeu liminar impedindo a tramitação da lei. Em 24 de abril o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, suspendeu essa liminar, abrindo espaço para sua sanção, que aconteceu no inicio de maio.
Finalmente, e não menos importante, em sessão do mês de abril, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), a quem compete estabelecer as normas ambientais no País, aprovou Resolução, ainda aguardando publicação, simplificando o licenciamento ambiental para loteamentos de até 100 hectares, destinado à construção de habitações de interesse social. Segundo a Resolução, a licença ambiental para tais empreendimentos deve seguir procedimentos mais expeditos, e prevê sua liberação em até 30 dias. Como isso vai acontecer a Resolução não explica, o que deve tornar esse mais um procedimento com vários vícios e problemas.
O Governador do DF, José Roberto Arruda, já manifestou interesse nesse tipo de empreendimento, chegando a afirmar que espera que o Distrito Federal seja a primeira unidade federativa a implantar tais loteamentos. A expectativa do Governador é que, com o Plano Diretor, seja possível a doação de áreas para o programa “Minha Casa, Minha Vida”, do Governo Federal.
O Governo local conta, agora, com um Plano Diretor que permite implantar e regularizar expansões urbanas, aliado ao direito de emitir as licenças ambientais para tais empreendimentos, mais a flexibilidade para licenciar loteamentos de interesse social. A conjunção dessas alterações, se não forem aplicadas com transparência, pode trazer sérios problemas ambientais e sociais ao Distrito Federal.
As políticas públicas, independente do acerto das suas propostas, merecem por parte da população um grande envolvimento para garantir a eficiência em atender seus propósitos. Quando elas acontecem associadas dessa maneira, as mudanças podem ser muito grandes. E merecem toda a atenção da população e das organizações sociais.

Gil Borges