Confúcio falou: “Se não podes conduzir teu negócio conforme teu discurso, não terás sucesso”. É uma tradução livre, claro. Mas isso significa que a hipocrisia, assim como a mentira, tem pernas curtas. Gosto de acreditar nisso.
Em matéria publicada pelo Correio Brasiliense, baseada em pesquisa conduzida pela Fundação Instituto de Administração (FIA), a respeito de profissões do futuro, foi apontada como futuríssima a “gerência de eco-relações”.
E o que faz um gerente de eco-relações? Como profissão do futuro, muitas das suas atividades ainda estão para serem desenvolvidas. Mas aponta para o caminho de buscar a sustentabilidade das empresas mediante o relacionamento com as “partes interessadas” (os stakeholders). Ou seja, consolidar junto aos clientes, fornecedores, colaboradores, vizinhança, grupos e movimentos sociais, sociedade em geral, uma relação de mútuo interesse. Produzir e comercializar produtos que tragam satisfação não só aos clientes, mas também demonstrar transparência de que os caminhos seguidos até colocar o produto na prateleira, foram trilhados de maneira correta, do ponto de vista social e ambiental.
E é aí que entra Confúcio: se isto for só discurso, dissociado da prática da empresa, não terá sucesso. Ou, não será sustentável. Essa será, então, a grande função de um gerente de eco-relação: traduzir para a cultura empresarial a preocupação socioambiental, procurando manter o interesse econômico associado a uma visão de futuro que garanta a sustentabilidade do negócio.
Como podemos ver, uma função ética. Precisará interagir com todos os níveis da empresa, buscando parcerias para que o desenvolvimento dos produtos e das práticas empresariais sejam transparentes, e transmitam confiança às “partes interessadas”. Que serão cada vez mais interessadas, e cada vez mais amplas.
A responsabilidade socioambiental não é coisa nova; múltiplas iniciativas estão em desenvolvimento por empresas ao redor do mundo. Sinceras, ou não. Muitas ainda com a visão de que a prática da responsabilidade socioambiental é bom para os negócios. Outras, com a visão de que os negócios é que devem ser bons para o meio ambiente e para a sociedade. Questão de cultura e de valores.
Esse será o maior desafio de um gerente de eco-relações: trabalhar a cultura da empresa, fazendo com que a prática socioambiental seja o ponto de partida para o planejamento estratégico.
Terá que trabalhar com questões complexas, como:
• Até que ponto a empresa está disposta a analisar processos e incorporar em suas planilhas os custos externos ? As tais “externalidades”, que representam custos coletivos, não apropriados pelo ciclo da empresa ou dos seus fornecedores?
• Até que ponto a empresa está tratando a eco-responsabilidade como business?
• Até que ponto a empresa está adotando a eco-responsabilidade como discurso do “marketing verde”?
Enfim, entre tantas atividades, o gerente de eco-relações certamente terá que consolidar a imagem institucional que corresponda à realidade da estratégia empresarial. Para isso, primeiro terá que contribuir para uma estratégia em sintonia com a sustentabilidade. Afinal, conduzir os negócios dissociados do discurso, não é sustentável. É picaretagem. E picaretagem não é sustentável, como já dizia Confúcio.

Gil Borges